COMIDA E CULTURA – PARTE 1

Escrevi recentemente sobre o conceito de “viagem como terapia” que diz respeito à ideia de encontrarmos destinos que possam nos favorecer a melhorar ou mudar algo que queremos em nós mesmos. A ideia de unir viagem com aprendizado pode estar nesse contexto se o que buscamos é pensar nossos valores através de uma imersão em outra cultura ou mesmo para repensar a carreira, fazer uma mudança profissional.

Acho que não existe maior imersão em cultura do que através da comida. No livro Comida como Cultura, o autor Massimo Montanari afirma que, como a linguagem, a cozinha contém e exprime a cultura de quem a pratica, é depositária das tradições e da identidade de grupo. O modo de comer revela a personalidade e o caráter do individuo. A qualidade da comida é, de fato, entendida pelas culturas tradicionais como expressão direta de pertencimento social. O modo de se alimentar deriva de determinado pertencimento social e ao mesmo tempo o revela.

“As escolhas alimentares terminam por constituir uma forma de representação do mundo e, por consequência, fornecem inúmeras informações sobre aqueles que as praticam. Os hábitos de comer constituem uma linguagem que fala de outras coisas como gênero, família, religião, identidade, etc. A comida, ou melhor, a comensalidade é também um meio de sociabilidade e de traçar distinções sociais.”
Klaas Woortmann

Alimentação foi meu tema de trabalho de conclusão de curso na Pós Graduação em Pesquisa de Comportamento e Antropologia do Consumo, então sou suspeita para falar, me interesso muito pelo tema. Adoro experimentar e conhecer um lugar através da comida, acho que não há melhor maneira de conhecer um pais e sua cultura do que explorar os seus mercados e feiras..

Imersão na cultura pela culinária

Na Revista Elle do mês maio/2014 saiu uma matéria especial Luxo Viagem Gourmet – Férias na Cozinha – com excelentes dicas sobre cursos de culinária em diferentes países.

Realizada pela escritora Rachel Verano que viajou, com o marido e fotógrafo, para destinos mais desejados do mundo e mergulhou na cultura de cada região fazendo cursos para aprender a culinária local. A experiência resultou em reportagem na edição de aniversário da revista.

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“É entre corredores recheados de delicias típicas que se pode levantar uma verdadeira tese sobre hábitos locais. As feiras de rua são um delicioso mergulho na vida do lugar. É onde melhor se vê a relação dos povos com a culinária, com a mesa, com as coisas mais saborosas da vida. E pular das ruas para a cozinha é passar a fazer parte, ainda que pode pouco tempo, da rotina de seu destino. Quando ele em questão é a Toscana ou os verdejantes campos de Bali, por exemplo, o programa fica ainda mais irresistível.

Que tal aprender a fazer croissants com alguns dos melhores chefs de pâtisserie do mundo na melhor fabrica de chocolates do planeta, na França? Ou esculpir delicias de nomes impronunciáveis entre os arrozais do Vietnã? No México, as pimentas ficam ainda mais saborosas à beira do fogão – em especial se o passo a passo for acompanhado das incríveis tequilas do pais. Independentemente do canto do mundo escolhido, uma coisa é certa: colocar as mãos na massa pode render muito mais do que dias a fio passados em museus e galerias. Além de lautas refeições em lugares onde os simples turistas só cabe espiar pelo buraco da fechadura…”

Revista Elle Especial Luxo Viagem Gourmet – “Férias na Cozinha”

A seguir, os locais informados pela matéria e trechos de uma entrevista com a escritora que a realizou, Raquel Verano.

Toscana, Italia: Escola Toscana Saporita – os cursos costumam durar uma semana e os finais do dia terminam com Vin Santo, o vinho de sobremesa local, acompanhado de biscotti, saídos do forno na mesma tarde.

“Há cursos de duração de um dia e de uma semana, em italiano e em inglês. As aulas acontecem em um casarão maravilhoso localizado no centro de uma propriedade próxima a Lucca, em plena Toscana, onde alguns alunos também se hospedam. A experiência é de vida no campo: dá para começar o dia fazendo compras no mercado, passear de bicicleta entre uma aula e outra, observar a produção de azeite e aprender a fazer biscotti (aquele biscoito crocante com amêndoas), massas caseiras tipicamente italianas e molhos magníficos.”


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Bali, Indonesia: Casa Luna Cooking School – aulas com uma das mais respeitadas chefs locais, a australiana Janet De Neef que se casou com balinês e se mudou para Bali em 1985.

“O lugar é maravilhoso, perto do centro de Ubud. Trata-se de uma pousada que oferece aulas de culinária em inglês para hóspedes e visitantes, sob comando da chef australiana Janet De Neef. Ela ensina a misturar todos os temperos, base da perfumada comida balinesa. Optei pelo curso de prato de festa, que acontece todo domingo à noite e tem quatro horas de duração. Aprendemos a preparar o típico bebek betutu, um pato defumado assado por nove horas debaixo da terra ao perfume de coco. O resultado é incrível.”


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Oaxaca, Mexico: Casa Crespo  – um dos melhores restaurantes locais comandado pelo chef Oscar Carrizosa.

“Meca da gastronomia no México, Oaxaca possui restaurantes imperdíveis, como a Casa Crespo, que, além de abrir para almoços e jantares, oferece cursos ministrados ora em espanhol, ora em inglês com duração de quatro horas. Foi uma das melhores aulas que eu fiz na vida. O chef Oscar Carrizosa nos levou ao mercado da cidade e ensinou na prática quais são os ingredientes e molhos típicos mais usados na culinária mexicana. Compramos tudo fresco: abobrinha, feijão, massa de chocolate com especiarias… Eles fabricam o próprio chocolate, que serve de base para muitos moles (molho que é marca registrada por lá), usados para temperar carnes e frangos. O mole que aprendi era amarelo e tinha como base amêndoas. Além disso, Oscar ensinou receitas de quibe recheado com queijo e tortillas de vários tipos: de queijo, de abobrinha e até de gafanhoto (?!) que eu não tive coragem de experimentar!”


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Hoi An, Vietnã: Red Bridge Cooking School  – embarca-se em uma canoa de madeira para chegar, em pouco mais de 20min, na “sala de aula”: uma propriedade cercada de palmeiras e escoltada pela ponte vermelha que dá nome à escola.

“Hoi An é a cidade mais linda do mundo, e a comida de rua por lá é das melhores que eu já provei na vida. Parece cidade de princesa, cheia de casarões tombados pelo patrimônio histórico. Este é o cenário do curso que fiz no Vietnã. Para começar, fui apresentada a várias frutas e verduras que não sabia que existiam. Descobri também que os vietnamitas são superligados à apresentação da comida, então tratei logo de comprar uma faca especial que ajuda na food decoration. Na aula, a primeira coisa que fizemos foi entrar em um barco e navegar pelo rio. De lá, colhemos as ervas usadas para preparar o almoço feito por nós mesmos. O chef vai dando o passo a passo de cada receita (repleta de noodles, carne de porco, camarão e frutas, tudo muito fresco) e cada aluno tem seu próprio fogão. Depois da refeição, temos direito de usufruir o espaço – belíssimo, por sinal – até o final do dia.”


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Tain L´Hermitage, França: École Du Grand Chocolat da Valrhona  – alguns dos maiores chefs de pâtisserie do mundo se formaram na escola, mas os cursos para gourmets de fim de semana acontecem com frequencia e incluem módulos em que se aprende a preparar macarrons, mousses e sobremesas nos quais a grande estrela é sempre o chocolate.

“Pense em uma cidade inteira com cheiro de chocolate. Assim é a pequena Tain L’Hermitage, no sul da França. Isso porque é lá que está localizada uma das melhores e maiores fábricas de chocolate do mundo, que possui quase um século de vida e fornece para os principais restaurantes 3 estrelas. Foi lá também que fiz o mais profissional curso de gastronomia da minha vida, de viennoiserie. Aprendi a fazer brioche, pain au chocolat e o nada simples croissant – são mil lâminas, etapas e técnicas que me fizeram valorizar ainda mais esse tipo de doce. Apesar de vários profissionais de peso frequentarem a escola, chefs amadores também são bem-vindos nos cursos de final de semana.”


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~ VONTADE DE FAZER AS MALAS AGORA! ~

Fotos: Rachel Verano e Marco Pomárico
Foto de capa: Arquivo Pessoal

2 Comments

  • 3 anos ago

    The hotensy of your posting shines through

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