O NOVÍSSIMO MUSEU DA FOTOGRAFIA DE FORTALEZA

Com obras de 112 fotógrafos, brasileiros e estrangeiros, e curadoria de Ivo Mesquita, inaugurou no último dia 10 de março na capital cearense, o Museu da Fotografia de Fortaleza, o mais importante museu de fotografia contemporânea da América Latina.

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Fachada do museu Foto: Celso Oliveira

Em 2009, o colecionador de arte Silvio Frota adquiriu o conhecido retrato da menina afegã Sharbat Gula, fotografada por Steve McCurry e publicada pela National Geographic em 1985. Frota refletiu sobre a razão de ter se sentido impactado por aquela foto e decidiu estudar a história da fotografia, participar de leilões, visitar mostras e se aproximar de fotógrafos.

Foi o início da construção de uma coleção própria dedicada ao gênero e se tornar um dos maiores senão o maior colecionador de fotografias do país, com uma coleção espetacular, de fazer inveja a muitos museus internacionais, a mesma que agora a Fundação Paula e Silvio Frota traz a público em Fortaleza, com a inauguração do Museu da Fotografia, no bairro de Aldeota, em antigo edifício reformado pelo arquiteto Marcus Novais.

Fotografia original de Steve McCurry – “Menina Afegã”
Fotografia original de Steve McCurry – “Menina Afegã”

“A ideia do Museu nasceu justamente da dificuldade de encontrar espaços para ver grandes obras, tanto de pintura quanto de fotografia. Não é justo que grandes obras de arte estejam restritas a um público muito pequeno, e vimos que estávamos cometendo o mesmo erro com a nossa coleção. Decidimos assim criar um espaço e disponibilizá-la ao público” Silvio Frota, criador do museu com a esposa Paula Frota.

Foco em cidades e fotojornalismo

O acervo hoje chega a mais de duas mil obras que abrange 200 anos de história e os trabalhos são reunidos a partir de um norte subjetivo e pessoal. O olhar de Frota tem como preferência obras e conjuntos que sintetizam episódios emblemáticos da história do Brasil. Raras vezes ele escolhe uma única foto de um autor, preferindo sempre as séries ou os portfólios, pois acredita ser a única maneira de conhecermos a visão do fotógrafo.

  • Fotografia original de Dorothea Lange – “Migrant Mother”
  • Fotografia original de Man Ray - Sem titulo
  • Fotografia original de Horst P. Horst – “Round the Clock”
  • Fotografia original de Marc Riboud
  • Fotografia original de Otto Stpakof – “Ian”

Foi assim que profissionais brasileiros e estrangeiros, como Jean Manzon (1915-1990), José Medeiros (1921-1990), Chico Albuquerque (1917-2000), Martin Chambi (1891-1973), Irmãos Vargas (Carlos e Miguel, nascidos no século XIX) e Dorothea Lange (1895-1965), foram se encontrando na coleção, ao lado de outros nomes da fotografia de moda, do retrato, da vida social.

Também estão presentes Marcel Gautherot (1910-1996), Thomaz Farkas (1924-2011), Evandro Teixeira (1935), Claudio Edinger (1952), Maureen Bissiliat (1931), Miguel Rio Branco (1946), Mario Cravo Neto (1947-2009), Gabriel Chaim (1982), Victor Dragonetti (1990) e André Liohn (1974).

Fotografia original de Marcel Gautherot – “Congresso Nacional II”

Uma das características da coleção são as séries de fotojornalismo, as fotografias narram histórias de guerras mundiais, da Grande Depressão, da ditadura militar brasileira, dos conflitos que arruinaram a Síria e dos protestos de 2013, entre outras.

  • Fotografia original de José Albano
  • Fotografia original de Henri Cartier-Bresson
  • Fotografia original de João Roberto Ripper

“É preciso contar uma história, é preciso contar a história do País, e o fotojornalismo é perfeito para isso. Veja as fotos dos anos 1960 aos 1970: eram adrenalina pura. A nova geração produz uma fotografia muito mais construída. Poder acompanhar isso é muito bom.” Silvio Frota

  • Fotografia original de Gabriel Chaim – “Syrio” (Aleppo)
  • Fotografia original de Evandro Teixeira
  • Fotografia original de Robert Capa – “Soldado Caído”

Em um espaço de 2.500 metros quadrados, o segundo museu de fotografia do Brasil – o primeiro localiza-se em Curitiba – dispõe de quatro andares com três pisos de área expositiva divididos entre mostras permanentes e temporárias, um auditório para cursos e palestras e espaço para eventos, além de café, biblioteca, sala de pesquisa e loja/ livraria onde o público poderá adquirir fotografias de jovens artistas.

Museu Educacional

Disponibilizar sua coleção para ser vista por todos que têm interesse não é o bastante para o idealizador do museu. A preocupação pedagógica também o motiva e de alguma maneira guia a expansão de sua coleção.

Planeja investir também no aspecto educacional do museu, com a realização de oficinas de fotografia que poderão resultar em exibições, apresentação de exposições itinerantes em comunidades carentes e organização de visitas ao museu. Promover cursos, palestras e trabalhar com crianças das comunidades em parceria com a Secretaria Municipal da Infância e Juventude.

A primeira exposição conta com 440 obras de grandes nomes da fotografia

Ivo Mesquita (ex-Pinacoteca de São Paulo) é o curador responsável pelas mostras inaugurais. Ele não buscou tratar de questões técnicas da fotografia, dividindo as mostras em eixos bem amplos, mas que apresentam os destaques da coleção ao mesmo tempo que a relacionam ao contexto.

Assim, as mostras permanentes, “Um Imaginário de Cidades” e “Jogos de Olhares” reúnem desde clássicos da fotografia internacional, como o francês Henri Cartier-Bresson e o húngaro Robert Capa, ambos fundadores da agência Magnum, passando pelo peruano Martín Chambi e pela norte-americana Dorothea Lange e chegando a contemporâneos como Cindy Sherman. Também não faltam os que se destacam pela produção no Brasil, como Mario Cravo Neto, Claudia Andujar, Rosângela Rennó, Miguel Rio Branco e Gabriel Chaim, este visto em diversas séries de coberturas dos conflitos do Oriente Médio.

  • Museu da Fotografia de Fortaleza/ Divulgação

Um Imaginário de Cidades” convida o expectador a explorar os espaços urbanos, identificar-se com os personagens retratados e questionar a arquitetura das décadas retratadas. “Jogo de Olhares” é dedicada à fotografia contemporânea. Sem temas específicos, os trabalhos caminham pelo surrealismo e erotismo, foto performances, fotografia de moda, fotorreportagens.

A temporária “Sobre Crianças” abraça o imaginário infantil, mostrando sorrisos e abandonado. Essa série trabalha diferentes olhares, gerações e nacionalidades dos pequeninos em ambientes comuns como escola, chegando ao debate sobre o trabalho infantil e violência doméstica.

Em um último momento – no terceiro andar do edifício –  na mostra temporária “O Norte e o Nordeste”, o visitante adentra o universo da fotografia dedicado ao Norte e Nordeste brasileiro, narrado por autores tanto brasileiros como estrangeiros, que ajudaram a criar o imaginário visual da região. É o caso de Pierre Verger, Jean Manzon, Marcel Gautherot, José Medeiros ou Chico Albuquerque.

O fotógrafo cearense Chico Albuquerque é o grande homenageado nesse eixo da mostra. Ganhou uma sala dedicada a ele, em comemoração ao centenário do grande representante da cultura local, com sua série sobre a produção do filme inacabado “It´s all true” – “É Tudo Verdade” (1942), de Orson Welles em que foi convidado a participar. O fotógrafo conta que desse encontro com um dos mais importantes e originais diretores de cinema do século XX, surgiu seu entendimento do sentido da linguagem fotográfica e o poder da sua poética.

Com tudo isso, Mesquita aborda, a partir da coleção, diversas vertentes da produção fotográfica: surrealista, com Man Ray e Fernando Lemos, ou fotojornalística, com Juca Martins, para ficar em alguns exemplos, mas evitando que o novo espaço seja um estranho em seu local de origem.

O mecenato brasileiro tem tido grande visibilidade no Ceará na última década, e o Museu da Fotografia não foge de seu território de origem.

O secretário de Turismo de Fortaleza, Alexandre Pereira, visitou o novo Museu da Fotografia de Fortaleza e apresentou a ideia para reconhecer o Museu como Patrimônio Turístico da cidade. A solenidade do reconhecimento deve acontecer até o próximo mês.

Este é o segundo equipamento de iniciativa privada, que será reconhecido como Patrimônio Turístico. No ano passado, o Espaço Cultural Unifor também foi reconhecido e incluído na promoção do destino Fortaleza.

Pelos corredores do local, fotos históricas, foto-reportagens, arquivos fotográficos, cineclubismo, retratos, paisagens e crônicas visuais – assim como a diversidades de autores entre brasileiros e estrangeiros. Trata-se de um valioso patrimônio, tanto para Fortaleza quanto para o mundo.

Museu da Fotografia  http://museudafotografia.com.br/
Rua Frederico Borges, 454 – Varjota
Funcionamento: de quarta a sábado, de 12h às 17h
Ingresso: 10 reais. Para menores de 18 anos e maiores de 60 anos, a entrada é gratuita. Quarta-feira entrada gratuita para todos.
Fontes: Folha de São Paulo, Revista Brasileiros, Revista Veja, Site Resumo Fotográfico, Site Patio Hype, Site Focus Foto.

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