JARDIM SUSPENSO EM PARIS: O PRECURSOR DO HIGH LINE DE NOVA YORK

A Promenade Plantée (pode ser traduzido como “caminho arborizado”), também conhecida na cidade como La Coulée Verte René-Dumont (que significa “corredor verde”), é um passeio muito bacana e estranhamente pouco conhecido pelos visitantes de Paris. Fico surpresa pois muitas pessoas que eu converso, algumas que já visitaram Paris diversas vezes, nunca ouviram falar.

Portanto, indico fortemente uma visita, ou melhor, várias visitas, sempre que estiver na cidade, pois ela está em constante mutação dependendo da estação do ano.

Antigamente, na praça da Bastille, existia uma estação ferroviária construída em 1859 e o seu acesso era feito através de um viaduto formado por 71 arcos  que conduzia os trens até o interior da Gare (estação). A estrada de ferro foi desativada um século mais tarde. No lugar da estação, hoje temos a Ópera Bastille. E o viaduto foi preservado e hoje faz parte da Promenade Plantée, um parque linear implantado ao longo do leito ferroviário da antiga linha Bastille – Vincennes. O eixo verde conecta desde 1993, ano de sua inauguração, a Avenida Daumesnil e a região do bosque de Vincennes.

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Imagem: Armand Gorintin [parisbalades.com]

No final da década de 80 a prefeitura de Paris resolveu transformar a antiga estrada de ferro, utilizando os trilhos suspensos do trem, neste bonito passeio verde. O arquiteto Jacques Vergely e o arquiteto paisagista Philippe Mathieux planejaram para o viaduto ferroviário abandonado, um espaço verde diferente de qualquer outro parque na cidade. O primeiro parque elevado do mundo. Que pode até ter sido inspiração para o famoso parque High Line, inaugurado em 2009 em Nova Iorque.

Trata-se de uma grande passarela arborizada de 4,7 quilômetros de extensão que atravessa praticamente todo o 12° arrondissement. Vai da Rue de Lyon, na proximidade da Ópera Bastille, até a proximidade do Boulevard Périphérique.

A grande particularidade é que uma parte dela fica sobre o antigo trilho do trem de Vincennes, formando um jardim suspenso ou parque elevado. A parte que vai da Bastille, seguindo pela avenida Daumesnil até o Jardin de Reuilly (cerca de 2km) é elevada 10 metros acima do nível da rua, e todo o restante é na altura da rua.

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Imagem: Alamy.com

Os arquitetos projetaram um ambiente de jardim ao longo do antigo viaduto, onde se encontram roseiras, arbustos, lavandas, bambus, heras, árvores de limão e muitas outras variedades.

A rota do parque elevado passa por partes abertas, oferecendo lindas vistas para a cidade e seus parques, e partes fechadas, entre edifícios modernos dos bairros que circundam o parque.

É um verdadeiro prazer passear neste jardim suspenso, que nos oferece uma vista privilegiada deste bairro residencial e tranquilo, e também nos permite observar a arquitetura parisiense e os tetos da cidade de uma a perspectiva fora do comum.

Às vezes a Promenade Plantée “atravessa os imóveis”. Outras ela passa na altura das janelas e dos apartamentos que a circundam.

É um excelente exemplo de reuso, reutilização e ressignificação dos espaços, um tema que bastante me interessa. Essa solução de transformar um local que deixou de ser útil em um espaço verde e de lazer, é uma maneira sustentável de trazer mais qualidade de vida aos moradores e revitalizar a região, melhorando também a economia local.

Viaduc des Arts

A parte dos arcos do viaduto, que fica abaixo do parque, é um dos pontos mais interessantes, chamada de Viaduc des Arts. O projeto previa a restauração e ocupação dos 67 arcos remanescentes com fachadas de madeira e vidro.

O espaço resultante abriga hoje uma serie de ateliers de arte e pequenos comércios especializados ocupados por artesãos de diversas áreas, fabricantes de instrumentos musicais, marceneiros, restauradores têxteis, estilistas e outros artistas, transformando essa obra de infraestrutura em um artefato híbrido: um edifício/ parque que desenha a lateral de uma importante avenida da cidade.

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Imagem: Luís Eduardo Loiola [vitruvius.com.br]

Ali você encontra desde especialistas na criação de arranjos florais usados no mundo do espetáculo (Atelier Fleur d’art Guillet) até um mestre artesão que fabrica e restaura violinos e violoncelos (Roger Lanne Luthier). De decoração de porcelana pintada à mão (Atelier Camille Le Tallec), a tecidos dedicados à alta costura internacional (Tissus Malhia Kent).

No total, existem cerca de cinquenta artesãos que exibem ali suas mercadorias e incentivam o artesanato regional. Cafés e pequenos restaurantes também estão localizados no local, permitindo aos visitantes desfrutarem de uma refeição durante o passeio. Conheça todos os ateliês e os restaurantes. E mais informações no site do complexo.

“Observa-se que a ocupação dos arcos ocorreu inicialmente de forma espontânea e anterior ao projeto de Patrick Berger. O projeto uniformizou o que a cidade já havia reinterpretado. Em seu livro Lições de arquitetura, Herman Hertzberguer analisou o artefato e entende que uma forma específica (arquitetônica ou urbanística) nem sempre se ajusta apenas a um objetivo. Existem formas e tipologias urbanas que possibilitam diversas interpretações quando as circunstâncias permitem. Assim, é possível dizer que a variedade de interpretações já estava de alguma forma contida na estrutura existente, permitindo assim, a nova leitura.” [Website Vitruvius]

Hoje a obra se encontra completamente inserida no contexto urbano de Paris e é tida como exemplo bem sucedido (e pioneiro) da atuação do APUR (Atelier Parisien d’Urbanisme) na malha urbana da capital francesa.

Para mais informações sobre a história do projeto original da estação ferroviária e todo o processo de construção e arquitetura da Promenade Plantée no Webite Vitruvius.

“Descobrir o Viaduc des Arts, suas oficinas, seu passeio arborizado e seua arredores. Passear ao longo das janelas, subir as escadas e apreciar a vista de Paris… Respirar o perfume de rosas antigas ao longo de seu caminho. Sentar em um canto do gramado, no Jardim Reuilly e relaxar… Aproveitar do mercado de pulgas d´Aligre, suas fantasias, seus produtos inéditos e ecléticos… Visitar os artesãos da Faubourg Saint Antoine e vibrar diante das performances da Opera Bastille. Admirar os estúdios e trabalho de designers, estilistas, ateliês de perucas, joias e adereços. Desfrutar de refeições nos restaurantes nos terraços da Promenade no Café Jardin l´Arrosoir, na avenue Daumesnil e do Viaduc Café, antes de fugir para outro país na Gare de Lyon…

E encontrar nossos vizinhos e amigos nos Ateliers de Paris, 30 rue du Faubourg Saint-Antoine; nos Ateliers des Arts de France, 55 avenue Daumesnil; no 100, 100 rue de Charenton; no INMA, 23 avenue Daumesnil; na l’Ecole Boulle, 21 rue Pierre Bourdan…”

[Website Le Viaduc des Arts]

A Promenade Plantée mostra uma paisagem bem diversificada em todo o seu percurso. É um dos lugares mais mágicos e lindos de Paris! Devia ser considerado um dos passeios imperdíveis para se fazer na cidade. No outono, época em que estive, fica ainda mais bonita, toda laranja e vermelha e o entorno fica particularmente atraente!

Difícil escolher a parte mais bonita diante de tanta beleza, mas acho que o trecho inicial, justamente o que é elevado, que vai dos arredores da Bastille até o Jardin de Reuilly, é o mais bonito. Para quem não tem tempo de fazer todo o percurso, deve fazer pelo menos esse, que possui 2 km aproximadamente. A escada para começar o passeio fica na altura do número 44 Rue de Lyon, logo abaixo da Praça da Bastilha.

Dali o percurso segue posteriormente por entre túneis e jardins até finalmente chegar em Porte Dorée e se juntar ao bois de Vincennes. Ao todo, mais de 3 hectares de belas paisagens com ciclovias, bancos para repouso e muito verde.

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Mapa da Promenade Plantée

Uma cena de um dos meus filmes preferidos, o “Antes do Pôr do Sol” (Before Sunset) – o segundo da trilogia, que sucede “Antes do Amanhecer” (Before Sunrise) e antecede “Antes da Meia Noite” (Before Midnight) – foi gravada lá e pode ser vista em dois videos abaixo.

Como chegar: de metrô descer na estação Bastille e pegar a rue de Lyon do lado direito da Ópera. Logo em seguida à esquerda começa a avenida Daumesnil e o Viaduc des Arts.
O passeio é gratuito e aberto todos os dias a partir de 8h durante a semana e 9h aos finais de semana. O horário de fechamento varia com a estação do ano: 20:30h (maio a agosto), 19:30h (setembro), 18:30h (outubro), 17h (novembro a fevereiro) e 19h (março e abril). Informações sobre o horário.

 ~VONTADE DE VOLTAR EM TODAS AS ESTAÇÕES DO ANO! TODOS OS ANOS! ~

Fontes:
Arquivo Pessoal e Websites: Le Viaduc des Arts, Vitruvius, Conexão Paris, Viver Paris e Cozinha Vibrante.

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