O EXEMPLO DA HOLANDA DE REUSO DE ESPAÇOS

Quem acompanha a página do Cities to Inspire no facebook já viu diversas vezes posts sobre reutilização e ressignificação do espaços, um tema que muito me interessa.

Já falei sobre igrejas e templos na Holanda que tiveram suas arquiteturas exploradas e se transformaram em bibliotecas, livrarias, cafés, cervejarias e casas de shows. Essa transformação ocorreu porque as instituições religiosas não têm mais recursos para se manter e elas ficam cada vez mais vazias por lá. Afinal, a última pesquisa realizada no país indica que 44% da população são de ateus.

Sendo alguns dos exemplos mais impressionantes dessa mudança, a livraria Selexyz, construída onde era a igreja de Maastricht e eleita pelo “The Guardian” como a livraria mais bela da Europa, e a famosíssima casa de shows Paradiso em Amsterdam, construída em uma igreja do século 19.

Mencionei também um antigo teatro com quase 100 anos de construção que foi transformado em uma belíssima livraria em Buenos Aires além da ideia de criar uma ciclovia subterrânea em Londres na área ocupada por uma antiga e inativa linha de trem.

Aqui no site também já escrevi sobre um exemplo de reuso em Paris: a transformação de  uma antiga estrada de ferro do século XIX desativada, utilizando os trilhos suspensos do trem, em um bonito passeio verde. O viaduto ferroviário abandonado transformou-se em um espaço verde diferente de qualquer outro parque na cidade e ainda ganhou ateliês e lojas especializadas sob os arcos.

Mas a Holanda é realmente campeã nessa área. É um país que também tenho um carinho mais que especial. Por respirar arte, design e arquitetura, que transita entre o clássico e o contemporâneo, e também por suas iniciativas inovadoras em educação, trabalho, alimentação, sustentabilidade e mobilidade urbana. Além de admirar a forma como tratam seus cidadãos: mais justa, mais igualitária, com maior qualidade da democracia e menos corrupção.. A Holanda é considerada uma das cinco nações mais inovadoras do mundo segundo o Ranking Global de Inovação do BCG (Boston Consulting Group).

Muitos arquitetos e escritórios de arquitetura mundialmente reconhecidos são holandeses como Rem Koolhaas, Rietveld, MvRdV e UNStudio.

E, aproveitando a abertura da exposição “Reuso na Holanda – reciclagem de patrimônio histórico” que fica em cartaz no IED Rio de Janeiro até dia 11 de fevereiro (quem puder ir, não perca!), resolvi fazer um texto aqui especialmente sobre esse assunto.

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A exposição mostra painéis com projetos de reabilitação de patrimônio histórico do país. A mostra foi produzida pelo Consulado Geral do Reino dos Países Baixos, com apoio do Rio Academy, e é fruto de anos de investigação de projetos de Reuso de edificações.

De acordo com os curadores da exposição, Paul Meurs e Marike Steenhuis, os doze projetos de reutilização demonstram as muitas maneiras pelas quais construções e áreas desatualizadas podem ser adequadas para uma nova utilização. Os exemplos ilustram os efeitos das mudanças no mercado de espaços comerciais, na igreja, nos portos e nos terrenos industriais. As atuais restrições financeiras estimulam a criatividade da reutilização e levam a novas abordagens, nas quais um edifício ou uma área, por exemplo, não é mais entregue totalmente acabada e sim com a possibilidade de uso temporário e novas maneiras de programação.

O reuso, a reutilização de um espaço ou região, a transformação de um local que deixou de ser útil é uma maneira sustentável de trazer mais qualidade de vida aos moradores e revitalizar uma região, melhorando também a economia local. A combinação entre habitação, comércio e cultura é ideal para impulsionar mudanças positivas. Brasil deve tirar grandes lições desses casos na Holanda.

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Contexto

A crise financeira mundial de 2008 teve um grande impacto no setor de construção civil na Holanda. De repente constatou-se que, nos Anos Dourados, foi construído muito mais do que era necessário. A bolha imobiliária estourou; o número de edifícios desocupados alcançou proporções epidêmicas. Atualmente, mais de oito milhões de metros quadrados de área comercial estão desocupados (17% do estoque). Também surgiu a necessidade por espaços muito diferentes daqueles que estão disponíveis atualmente.

Em decorrência das mudanças econômicas e sociais, milhares de edifícios se tornaram desnecessários: igrejas, mosteiros, fazendas, fábricas, armazéns, quartéis, escolas, prefeituras, edifícios inadequados que serviam como asilo para idosos. Existe também um desequilíbrio: a região central cresce, mas nos extremos da Holanda, a população diminui. Todas as mudanças contribuem para a urgência do ReUso. A tarefa de construir se transformou em uma obra de reforma.

Onde há espaço desocupado, há espaço para uma nova utilização. O desafio é dar outro destino aos edificios desocupados ou adaptá-los de tal forma que eles se tornem modernos e possam acompanhar os tempos de hoje: tecnicamente, economicamente e socialmente. O ReUso muitas vezes produz combinações surpreendentes, como realizar uma escola em uma fábrica, uma loja em uma igreja ou uma área de lazer em uma área militar. Reutilização adaptável é de todos os tempos.

Num passado distante, tratava-se muitas vezes de mudanças de poder: edificios e estruturas continuaram a existir, mas a utilização e simbolismo mudam.

Em algum momento no ultimo século e meio, a naturalidade da reutilização se perdeu. O crescimento e as mudanças sociais ocorreram de forma tão rápida que as modernas cidades industriais não puderam continuar crescendo organicamente com bases nas estruturas anteriores. Surgiu uma lógica inteiramente nova no planejamento e na construção baseada em crescimento, inovação, padronização e ampliação de escala. Construir era sinônimo de construções novas.

A crise financeira de 2008 teve grande impacto na Holanda e tornou dolorosamente claro que isso não funciona. Na construção civil, não se trata mais de criar oferta e sim de atender à demanda. E essa demanda tem tudo a ver com as novas relações economicas em que a Holanda se encontra agora. Uma análise de projetos de reutilização adaptável posteriores a 2008 mostra que a crise despertou muita criatividade.

Arquitetos aprendem a fazer projetos a partir do contexto existente que sempre exige uma abordagem especifica. O desafio da reutilização é considerado como uma verdadeira tarefa arquitetonica. Chama a atenção que arquitetos de renome no mundo todo estejam se envolvendo em projetos de reutilização.

Em uma sociedade onde ‘autenticidade’ é o novo produto de massa, crece a procura por lugares e difícios com personalidade e história. Viver e trabalhar em regiões e em edificios com afeto pelo local, exatamente conforme o desejo dos usuarios, cidades com surpresas e dimensão historica.

A exposição vale uma visita, pois explica todo o processo nos projetos destacados, desde a concepção, a captação de recursos, o diálogo com a população local até o projeto final.

Selecionei três exemplos de reutilização de espaços mostrados na exposição.

Livraria Waanders em De Broeren

Cidade: Zwolle
Ano: 2013 (construído em 1466)
Monumento nacional
Proprietário: Livraria Waanders, Zwolle
Projeto: BK Arquitetos, Utrecht
Programa: livraria, espaço de exposição, bar/ café-restaurante
Custos de construção: €5.000.000

O entusiasmo com a abertura de uma livraria na Igreja dominicana de Maastricht em 2005, e que recebeu do “The Guardian” a menção de “a livraria mais bonita do mundo”, convenceu o governo municipal em Zwolle de realizar ação semelhante.

A livraria Waanders in de Broeren foi criada em 1836 em um espaço modesto e foi se mudando de sede até chegar ao espaço da igreja medieval de Broerenkerk, que não estava em uso como igreja desde 1983, onde também montou um bar-restaurante, loja, espaço para exposição e eventos.

Para manter a livraria viável, a empresa procurou um novo conceito e apresentou o projeto ao governo municipal em Zwolle. O projeto dos arquitetos holandeses de Utrecht BK consiste em uma adição de um imóvel de 3 andares que está solto no espaço da igreja. Em cima da estante de livros de 11 metros de altura, os afrescos do teto podem ser admirados.

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Os arquitetos responsáveis pelo projeto foram orientados a manter intacta toda a estrutura do edifício, com um bonito órgão, vitrais nas janelas e pinturas no teto. Todos os móveis criados por eles são removíveis e podem ser retirados caso o edifício volte ao propósito original.

A igreja reutilizada enriqueceu o centro da cidade de Zwolle. A procura por um novo futuro para uma livraria, fez com que também uma igreja secular recebesse de volta o significado de lugar de encontro para a comunidade.

Imagens: Joop Van Putten
Imagens: Joop Van Putten

Achei interessante colocar também umas imagens da livraria Selexyz, construída onde era a igreja de Maastricht e eleita pelo “The Guardian” como a livraria mais bela da Europa e que inspirou o projeto acima.

Imagens: Website My Modern Met
Imagens: Website My Modern Met

Villa Augustus

Cidade: Dordrecht
Ano: 2007 (construído no ano 1882)
Monumento tombado
Proprietário: Daan van der Have, Hans Loos e Dorine de Vos
Projeto: Daan van der Have, Hans Loos e Dorine de Vos
Programa: hotel, restaurante e jardins
Custos da construção: €7.500.000,00

Hotel New York em Roterdã e Villa Augustus em Dordrecht são dois exemplos de reutilização que deram impulso enorme a partes envelhecidas da cidade. Hotel New York encontra-se no antigo terminal da linha Holanda-América e é um ícone pelo setor de portos redesenvolvido de Roterdã. Villa Augustus encontra-se na área da antiga empresa de canalização de água, junto ao rio.

A municipalidade de Dordrecht queria transformar o entorno, onde antigamente encontrava-se o estaleiro da cidade em um bairro habitacional e convidou o empresario Daan van der Have por causa do seu sucesso com o Hotel New York.

A caixa d´água que em 1882 fora projetada pelo diretor das obras municipais, J.A. van der Kloes, tem a aparencia de um castelo de conto de fadas e no terreno encontravam-se bacias de aguas extensas e uma casa de bombas monumental. Junto com sócios Daan propôs construir um grande jardim de agricultura urbana nas bacias de águas, transformar a caixa d´água em um hotel e a casa de bombas em um restaurante.

Imagens: Divulgação
Imagens: Divulgação

Placemaking ou reinventar espaços. A Villa Augusta funciona como hotel e restaurante acima das expectativas. Segundo Van der Have o ganho do empreendimento é que o projeto mostra a potencialidade dos estaleiros da cidade e modificou Dordrecht na sua essência. A auto confiança da cidade aumentou e atrai visitantes do interior e do exterior. Villa Augustus fez com que Dordrecht ficasse no mapa como precursora para a agricultura urbana.

Teatro Het Speelhuis

Cidade: Helmond
Ano: 2012 (1928)
Monumento tombado
Proprietário: municipalidade de Helmond
Projeto: Cepezed Arquitetos, Delft
Programa: teatro com foyer
Custos de construção €1.700.000,00 (sem técnica de teatro)

Outro caso de reutilização de uma igreja, a “Onze Lieve Vrouwen” em Helmod que começou com o incendio do teatro “Het Speelhuis” em 2011, um predio experimental dos anos 70 e era uma logomarca de Helmond.

A reconstrução deste icone poderia demorar então surgiu a necessidade de um teatro temporário e na procura por predios adequados, chegou-se na igreja.

O escritório holandês de arquitetura Cepezed localizado em Delft, tinha como ponto de partida não mexer no monumento de modo que a função temporária não causasse danos permanentes. Portanto todas as funções de teatro foram colocadas como construções desmontáveis: a plateia e o balcão, as instalações técnicas e o palco.

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Imagens: Jannes Linders

Em curto tempo e com orçamento organizado, Helmond não recebeu de volta a antiga casa mas sim um teatro também excepcional que deu nova alma a uma igreja importante. O contraste entre o antigo e o novo parece grande mas o novo fica harmonizado em detalhes com o antigo.

A exposição “Reuso na Holanda – reciclagem de patrimônio histórico” está em cartaz no IED – Instituto Europeu de Design no Rio de Janeiro até 11 de fevereiro na Urca. A própria construção onde se encontra a escola é um exemplo de reutilização e ressignificação de espaço. Inaugurado em maio de 2014, o IED-Rio revitalizou um patrimônio histórico e cultural na praia da Urca, o charmoso e histórico edifício que abrigou o Cassino da Urca e a TV Tupi, ícones da cultura brasileira. Além de oferecer cursos em diversas áreas relacionadas ao Design, o objetivo do IED-Rio é desenvolver o Centro Latino Americano de Inovação em Design.

Para saber  mais sobre os projetos presentes na exposição veja aqui.

~ VONTADE DE VER TODOS ESSES PROJETOS PESSOALMENTE, NÃO?!!! ~

Fontes:
Exposição Reuso na Holanda – reciclagem de patrimônio histórico
Livros: Reutilização Adaptável na Holanda e Contar com a reutilização adaptável.
Sites: Archdaily, My Modern Met, Waanders em De Broeren e Villa Augustus

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